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Adeus, Ozzy Osbourne (1948-2025)

Ozzy Osbourne tinha tudo para dar errado.

Adeus, Ozzy Osbourne (1948-2025)

Nasceu em Birmingham, uma feia e cinzenta cidade industrial sem maiores perspectivas que é a segunda maior da Inglaterra. Trabalhou num frigorífico, foi preso por incompetência em sua primeira e última tentativa de seguir uma vida de crimes.

Parecia estar chapado de alguma coisa em tempo integral. Foi parar numa banda (cujo guitarrista perdeu os dedos de uma mão ao cortar uma chapa de aço no emprego) assumindo o papel de vocalista embora sua voz reta fosse pouco melodiosa para ser um cantor admirável.

É isso: Ozzy não era cantor, era vocalista. Fazia coisas úteis com a voz para as músicas do Black Sabbath e, depois, de sua carreira solo. Só não dava para exigir que essas coisas úteis fossem notas com afinação milimétrica.

E, com tudo isso contra, Ozzy Osbourne deu certo.

Tornou-se um dos maiores nomes da história do rock pelo que fez em discos, palcos e pelos “causos” folclóricos que acumulou – como arrancar a dentadas a cabeça de um morcego num show e de duas pombas numa reunião com sua gravadora.

Morrer aos 76 anos (na terça-feira, 22/7) já foi uma vitória sobre a ciência. Por todos os abusos (e queremos dizer ABUSOS mesmo) de drogas e álcool que ele cometeu em vida, o “normal” teria sido morrer há vários anos, talvez algumas décadas.

Mesmo explicitamente lesado e cheio de problemas fĩsicos no fim da vida (complicações de coluna, mal de Parkinson), persistiu até o corpo se esgotar.

Foram 55 anos de carreira. Ganhou fama no Black Sabbath, aumentou a fama (e a conta corrente) como artista solo, virou astro de reality show de TV com a própria família, foi autor de uma das melhores autobiografias da mũsica pop (“Eu Sou Ozzy”) e fez seu show de aposentadoria três semanas antes de morrer em sua cidade natal, sentado num glorioso trono sinistro de Príncipe das Trevas, seu apelido.

Mas o personagem “tio malucão” que Ozzy encarnou há uns 30 ou 40 anos obscurecia o maior feito dele na Terra: inventar o rock sinistro depois batizado como heavy metal junto com seus três colegas de Black Sabbath.

Certamente os quatro (talvez os cinco, dependendo do quanto se gosta de “Sabbath Bloody Sabbath”) primeiros álbuns do Sabbath são gloriosos.

O primeiro, batizado com o nome da banda, foi lançado numa sexta-feira, 13, de 1970. E abria com a gloriosa faixa-título: sons de chuva e trovões antes da entrada do mais satânico de todos os riffs de guitarra de Tony Iommi e dos vocais desesperados e angustiados de Ozzy.

Esse álbum de estreia podia ter só essa faixa que já seria perfeito. Mas ainda trazia “Warning” e “N.I.B.”.

Ainda em 1970, o Sabbath fez seu segundo álbum a toque de caixa. “Paranoid”, o LP, não se resumia à faixa-título, quase um heavy metal pop que fez sucesso nas paradas britânicas.

Havia também duas músicas gigantescas que fizeram história no rock: o amargo e raivoso protesto anti-guerra “War Pigs” e a épica “Iron Man” – que, segundo a esnobe revista “Musician”, tinha um riff tão fácil que até um cachorro seria capaz de tocar…

“Master of Reality”, o magnífico terceiro álbum lançado em 1971, tinha o hino à maconha “Sweet Leaf”, a anticlerical “After Forever” e a mórbida “Children of the Grave”. Ninguém fazia músicas sem começo, meio e final felizes tão boas quanto o Black Sabbath.

“Black Sabbath Vol. 4”, de 1972, foi outro marco, começando com a capa de um Ozzy de braços abertos em alto contraste.

Tem gente que não reúne na carreira músicas tão fantásticas quanto “Wheels of Confusion”, “Tomorrow’s Dream”, “Supernaut”, “Snowblind” e “St. Vitus’ Dance”. E o heavy metal em geral talvez nunca tenha conseguido igualar uma balada lenta como “Changes”.

“Sabbath Bloody Sabbath”, de 1973, tem seus bons momentos, como a impecável faixa-título. “Sabotage”, de 1975, também, especialmente a pesada/leve “Symptom of the Universe”.

Só que, daí em diante, o Sabbath com Ozzy desandou. “Technical Ecstasy”, de 1976, é um álbum meio sem razão de existir.

E “Never Say Die”, de 1978, tinha sua faixa-título puxando mais para o rock pauleira corriqueiro que para o metal monumental que o Sabbath sabia fazer como ninguém.

Antes e depois de “Never Say Die”, Ozzy foi demitido do Sabbath – seus excessos eram demais até mesmo para metedores de pé na jaca como seus parceiros musicais.

O que fez Ozzy? Talvez sem nem planejar, partiu para uma carreira solo de impacto que começou com dois álbuns ótimos (“Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman”), nos quais se destacava o guitarrista Randy Rhoads, cuja técnica era de rivalizar com o já badalado Eddie Van Halen.

A morte estúpida de Rhoads num acidente de avião totalmente evitável em 1982 abalou um pouco a criatividade musical dos discos de Ozzy, mas não sua atitude nos palcos.

Comendo cabeças de morcego ou não, foi nos shows que Ozzy concretizou-se como lenda desde os anos 1980. Uma lenda que, infelizmente, teve de nos deixar agora.

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